Open Insurance: uma revolução está a caminho

Com o propósito de simplificar e modernizar o seguro, o novo sistema aberto marca o início de um período de transformações e desafios para o mercado.



No modelo atual, um motorista cuidadoso, que há anos não enfrente sinistros no seu seguro de automóvel, não terá qualquer vantagem ou recompensa na renovação. Se resolver mudar de seguradora, seu bom histórico de segurado não fará diferença no preço do seguro. Mas, esse modelo tem data certa para acabar quando entrar em operação o Open Insurance, um sistema de seguros aberto que consiste no compartilhamento padronizado de dados dos clientes das empresas do mercado supervisionadas pela Superintendência de Seguros Privados (Susep).


No novo sistema, o segurado que consentir em compartilhar seus dados poderá não apenas se beneficiar com descontos na renovação do seguro, como receber ofertas personalizadas de várias seguradoras, inclusive da sua, bem mais adequadas ao seu perfil de risco e com preços e condições mais atraentes. Esse empoderamento do consumidor de seguros está alinhado aos preceitos da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), em vigor desde 2020, que confere ao titular dos dados o direito de portabilidade e compartilhamento.


Com o Open Insurance, o seguro no Brasil não será mais o mesmo. O que se espera é a oferta de produtos inéditos, mais simples e modernos e também maior concorrência entre as empresas. O novo sistema tem conexão com o Open Banking, que está um pouco à frente nesse processo e já se prepara para iniciar até o final do ano o compartilhamento de dados de clientes bancários. Quando ambos os setores tiverem concluído o processo de abertura, então estará configurado o Open Finance, sistema financeiro aberto.


O Open Finance visa a consolidação da vida financeira do consumidor, com o histórico das contas mantidas em instituições financeiras, operações de crédito e investimentos, e também a consolidação dos produtos de seguros, previdência ou capitalização. A interoperabilidade entre ambos os segmentos está relacionada à concepção de um sistema mais transparente, em que o consumidor, além de ter verdadeiro domínio de seus dados, tenha fácil acesso a informações precisas sobre produtos, serviços e custos de cada empresa.



O diretor de Tecnologia da Informação da Susep, Eduardo Fraga, ressaltou, em evento do setor realizado em julho, que o sistema financeiro aberto não é uma iniciativa isolada nas agendas do Banco Central e da Susep, pois o objetivo comum é impedir que haja assimetria de informações. “O compartilhamento de dados seguirá fortes padrões de segurança e só ocorrerá com consentimento expresso e inequívoco do cliente”, disse. Fraga acredita que um dos ganhos do Open Finance será a inclusão financeira, com a entrada de desbancarizados e não-segurados.


Cronograma

O start para o processo de implantação do Open Insurance no mercado teve início em abril, quando a Susep colocou em consulta pública as primeiras minutas de circular. Em julho, veio a regulamentação com a Resolução CNSP nº 415/2021 e a Circular Susep nº 635/2021, que definem as diretrizes para o sistema. O cronograma estabelece três fases de implantação, com término em junho de 2023. Na primeira fase, que começa em dezembro e se estende até o meio do próximo ano, haverá o compartilhamento de dados públicos das empresas referentes a produtos e canais de atendimentos.


Em setembro de 2022, terá início a etapa mais importante, quando os clientes poderão compartilhar seus dados pessoais. Por fim, de dezembro de 2022 até junho de 2023, será concretizada a última etapa, a de efetivação dos serviços, com a realização de modificações e endossos, acessos, resgates e avisos de sinistros, com foco na melhoria da experiência dos clientes. Nesta última fase entram em cena as Sociedades Iniciadoras de Serviços de Seguros (SISS), que, segundo Gustavo Leança, Head de Soluções de Seguros da Capgemini, funcionarão como uma espécie de prestadoras de serviços ao cliente.



De acordo com Leança, nesse cronograma também estão definidas as datas para o estabelecimento da Governança Provisória e Definitiva do Open Insurance, órgão responsável dentre outras funções pela definição dos padrões de APIs (Application Programming Interface, ou, em tradução livre, Interfaces de Programação de Aplicação), que serão utilizadas para viabilizar o compartilhamento de dados entre as seguradoras.


As APIs funcionam por meio de um conjunto de rotinas e padrões estabelecidos por um software, que faz a interface para a comunicação com outros sistemas de forma segura, sincronizada e estruturada, a partir do consentimento ou solicitação do consumidor. O sistema é o mesmo utilizado, por exemplo, no Google Maps, no qual o aplicativo permite que qualquer um consiga construir um site com um mapa integrado a ele.


Desafios para o mercado

Pode não parecer, mas os prazos, apesar de ampliados recentemente, são relativamente curtos para a adequação das seguradoras ao Open Insurance. Gustavo Leança concorda que há muito a ser feito em pouco tempo. “Começa pelo ajuste ao modelo de comunicação via APIs, que precisa estar devidamente gerenciado, construído e monitorado, e vai até a adequação a protocolos de segurança que garantam a troca de informações segura e controlada, além de ser preciso também trabalhar a gestão do consentimento do cliente de maneira estruturada e com comunicação fluida”, diz, acrescentando que “agora é a hora de se preparar”. Mas, o tempo não é o único obstáculo que as empresas de seguros têm pela frente no Open Insurance. Quando o sistema entrar em funcionamento, as companhias vão entrar em acirrada concorrência. Por um lado, as seguradoras terão a oportunidade de aumentar receitas a partir do conhecimento que irão adquirir do seu cliente e de clientes novos. Na Europa, os bancos já estão lucrando com a venda dados por meio de APIs que ajudam, por exemplo, a calcular hipotecas, produzir estatísticas de uso de cartão, dados socioeconômicos etc.



Mas, por outro lado, existe para as seguradoras a ameaça da perda de clientes para outros players do Open Insurance que conseguirem trabalhar melhor os dados. “Dados são como petróleo”, diz Marcelo Fernandes, gerente de Desenvolvimento de Negócios para Insurance da FICO. Mas, não basta ter dados dos clientes. Para Fernandes, as empresas de seguros terão de extrair o máximo de insights e valor dos dados para, então, monetizar esse conhecimento.


Na sua participação em evento sobre o tema, realizado em agosto pela WSO2 e a Prensa, Fernandes previu que o Open Insurance será um grande divisor de águas no seguro, trazendo enorme competitividade ao mercado. “As SISS serão como um Buscapé do seguro, fazendo comparações de preços de seguradoras”, disse. Na sua opinião, os agregadores de preços serão capazes de oferecer mais opções aos clientes do que os corretores, os quais, aliás, ficaram de fora do Open Insurance. “Seguradoras e corretores de seguros terão de se reinventar”, disse.


SISS se inspiram nas TPPs

Olhando para o modelo inglês de Open Banking, Leança observa que as SISS foram inspiradas nas Third Party Providers (TPPs), que têm atuado como grandes promotoras de inovação no mercado europeu. “Se o cliente permitir o uso de seus dados, as SISS poderão consultar todas as seguradoras e consolidar as informações, agindo como uma agregadora financeira. Posteriormente, se tornará uma gestora de seguros do cliente”, disse. Segundo ele, inicialmente, as TPPs na Europa não passavam de cem, mas, dois anos depois aumentaram para 438 empresas. “Elas viram uma oportunidade de ganhar dinheiro, daí porque estão atraindo um impressionante número de angels investidores”, disse.


Durante a CIAB Febraban 2021, Leança expôs exemplos de TPPs inovadoras, como o Multiply, que utiliza o Open Banking para obter insights sofisticados sobre os gastos dos clientes. “Se o cliente quiser comprar uma casa, por exemplo, o Multiply pedirá a liberação dos dados dele para todos os bancos, analisará seus extratos e gastos e dirá como investir mais e quais os gastos terá de reduzir. Trata-se de uma consultoria financeira automatizada, com foco na compra de ativos de alto valor, que usa os dados com inteligência”, disse.


Outro exemplo é a Credit Kudos, que, segundo o executivo da Capgemini, está revolucionando a maneira de precificar crédito na Europa. Em vez de depender de sistemas de pontuação de crédito desatualizados e injustos, a empresa desenvolveu uma pontuação de saúde financeira, que identifica se o cliente tem tendência à inadimplência, além de reunir informações que possam melhorar e ajustar preços. Porém, mais um concorrente de peso vem por aí, o Google, que detém dados e tecnologia e se propõe a ser o app de internet banking para quem desejar.


Leança aposta que outras big techs, fintechs e insurtechs também estão se preparando para trabalhar dados de seguros. Com base nos cases que apresentou, ele avalia que é hora de as seguradoras brasileiras pensarem em como irão se encaixar nesse cenário. “Se essas empresas vão cuidar do front, então as seguradoras poderiam cuidar da operação, criando uma nova maneira de subscrição de riscos e de tratar o cliente, oferecendo mais do que o pagamento de sinistros”, disse.


Compartilhamento de dados com inovação e segurança

Open Insurance pode favorecer a criação e a oferta de produtos mais customizados e flexíveis aos consumidores


Hoje, o acesso à informação no mundo corporativo passou a ser um objetivo estratégico delineado pelas empresas. No setor de seguros existe a mesma percepção. No Open Insurance, a Susep pretende adotar “o espírito da cidadania financeira” nas normas, permitindo ao consumidor desfrutar dos benefícios do seguro. E mais: fazer a ponte de integração com o Open Banking e, assim, ampliar significativamente as oportunidades. O modelo proposto é um triângulo formado pelos vértices da segurança, transparência e inovação.


A Susep considera esse novo conceito de inovação como o “compartilhamento padronizado de dados e serviços por meio de abertura e integração de sistemas no âmbito dos mercados de seguros, previdência complementar aberta e capitalização”. Nesta perspectiva, a autarquia vislumbra a criação de produtos mais customizados e funcionais. As seguradoras seriam atraídas para este “novo mundo” ao adotar soluções inovadoras que permitam decisões mais rápidas, imprimindo desenvolvimento ao setor. Há quem considere que, quando o sistema democratiza o acesso a dados e informações, abre, inclusive, espaço para a operação de companhias regionais, de médio porte e de nicho.


O presidente do Sincor-SP, Alexandre Camillo, concorda que o seguro vive um processo de transformação diante de um mercado de grande potencial. Contudo, ele se mostra apreensivo. “Não temos nada contra inovação, mas é uma cópia do Open Banking. A diferença é que a relação é banco e consumidor. No caso do Open Insurance, a relação é seguradora com seguradora, mais o consumidor. Para os bancos, faz todo sentido, mas para o mercado de seguros não, pois já temos a figura do corretor. Outra questão é: vai diminuir o valor final para o consumidor? Não vai. Nós, como setor, não só os corretores de seguros, Fenacor e CNseg, já nos posicionamos, durante a audiência pública, contrários às disposições trazidas no Open Insurance. Principalmente, sobre as sociedades iniciadoras em seguros. Isto não está previsto em lei”, declara.


Produtos mais assertivos

Já o especialista em seguros de Responsabilidade Civil e consultor, Robert Hufnagel, encara o tema com otimismo: “O compartilhamento de dados favorece a criação e oferta de produtos mais assertivos aos clientes, mas tende a ampliar a concorrência tanto para corretores quanto às seguradoras, com a entrada de novos players interessados na versatilidade dos produtos”.


Na avaliação do especialista, a própria LGPD garante ao cidadão o direito à portabilidade dos seus dados, autorizando o compartilhamento das informações entre fornecedores e prestadores de serviço. Essa é a tese do coordenador da Susep, Thiago Barata, que, em live realizada pelo órgão regulador, reiterou a importância da LGPD no novo ambiente. A partir de agora, “o consumidor passou a ser o dono dos seus dados”, disse.


Hufnagel explica que o Open Insurance propicia práticas de inovação, por meio da transmissão de informações a parceiros e startups, por exemplo, garantindo a criação de novos modelos de negócios. Um entusiasta do tema, o CEO da Via Direta Corretora de Seguros, Jefferson Floriano, acrescenta outra virtude do sistema de seguros aberto: “A tendência de simplificação nas análises de risco dos segurados e a melhora considerável na precisão da precificação do próprio risco”. Floriano crê que a inovação defendida pela Susep permitirá às seguradoras trabalharem em conjunto, oferecendo coberturas mais flexíveis para outros tipos de eventos.


Com uma visão igualmente cautelosa, o economista e consultor Francisco Galiza considera a ideia um “desafio”. E justifica: “Embora possa acontecer em um ou outro caso internacional, temos de avaliar se o Open Insurance pode ser aplicado à cultura do setor no Brasil, que tem certas restrições sobre o compartilhamento de dados, por razões estratégicas e comerciais”. Em sua visão, o tema deve ser bem esclarecido e avaliado com os cuidados necessários para que alcance o êxito esperado. No entanto, considera válida a iniciativa. De fato, a inovação no setor de seguros é um caminho sem volta.


Fonte: Revista APTS Notícias (ed. 138) | baixe o PDF | Leia online